sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O QUE É UM ORIXÁ PARA A UMBANDA?

             Esta pergunta merece todo um capítulo de livro. Este é um dos pontos de vista que entram em confronto com os dos nossos irmãos africanistas. Todavia, recordamos que se fôssemos concordar com todos os aspectos de outras religiões, seríamos uma outra.
             Mesmo em nosso meio há profunda confusão; um verdadeiro hiato. Muitos, até mesmo do restrito grupo de intelectuais, discordarão veementemente. Outros considerarão um sacrilégio. Outros virão de punhos cerrados.
             Mas acredito que estejamos aqui para pôr as idéias sobre a mesa: o leitor tirará sua própria conclusão. Para princípio de conversa, é raro ver-se um espiritualista discordar de pontos-chave das idéias espíritas (diga-se Kardec e suas obras básicas), bem como as mensagens de André Luís, Emmanuel, Irmão X, sob a mediunidade mais do que examinada de Chico Xavier. Considerá-lo fraudulento, após mais de cinqüenta anos de labuta mediúnica impecável, mesmo sob o crivo daqueles que tudo fariam para ridicularizá-lo, está bastante longe da realidade. Fica difícil, não é mesmo? Ora, um exemplo da veracidade de suas mensagens consta em Evolução em Dois Mundos de André Luís, que falava, em meados de 1958 (primeira edição), que o átomo seria formado de partículas ainda menores do que os clássicos elétrons, prótons e nêutrons. Tal “teoria” foi provada apenas nas décadas de oitenta e noventa e, portanto, bem posterior ã primeira edição deste livro.
             Baseado nestas idéias, portanto, vamos desenvolver nosso raciocínio. Assim, o que é um Orixá? Incorporamos diretamente uma força da Natureza? Orixá é a força da Natureza? Orixá não é uma força da Natureza porque o que existe em determinado reino é um somatório de energias. Assim, por exemplo, o mar é formado de sais, água, energia absorvida da luz solar, energia eletrificada nascida do movimento das ondas etc. Uma energia, ou somatório delas, não pode pensar porque é matéria, e sabemos que matéria não pensa. Já vimos que energia é uma matéria. Tanto é verdade que é mensurável por fórmulas físicas. Outra coisa é que não poderíamos incorporar diretamente uma força da Natureza porque, senão, desintegraríamos. Vimos que, com a conceituação de resistência, isto prova ser impossível. E o Astral poderia criar transformadores astrais para que um médium pudesse ligar-se a esta energia “pensante"? Não. A prática prova que médiuns sérios não incorporam espíritos de “altíssima” voltagem como Buda, Jesus, Khrisna, Maomé, etc.
             Portanto, esta cogitação não é absolutamente prática.
             Todas estas idéias, para quem veio de berço africanista e agora trabalha em Umbanda, parecem desconcertantes. Mas pedimos paciência. Ponho esta questão: como nós, que trabalhamos com espíritos acreditamos em vida após a Morte, poderemos aceitar que matéria pura e simples tenha autonomia, sentimentos, características de personalidade e tudo o mais que caracteriza uma individualidade? O que somos, então? Espiritualistas ou materialistas? Com o que trabalhamos?E o que vem, então, incorporando em outras religiões?É um fenômeno puramente anímico (do próprio médium)? Respeitosamente, cada Orixá “no mundo” demonstra claramente ter uma personalidade própria, diferenciada de seu próprio médium e dos demais Orixás que tenham o mesmo nome. Vê-se isto claramente durante as possessões, pelo menos, as vistas até hoje.
             Queremos chegar neste ponto: eu e muitas outras pessoas crêem ser um Orixá um ancestral divinizado, um espírito ancestral incorporante. Pode parecer a outros repulsivo. Um deus, em pessoa, deixa seu status e passa a ser um egum (espírito de morto), mesmo de grande luz.
             Para nós, tudo são fenômenos mediúnicos, com abordagens e ritos diferentes. Todos válidos e verdadeiros. Mas fenômenos mediúnicos!
             É sobre este enfoque que chegamos à seguinte conclusão: um Orixá pode, perfeitamente, ir aos cultos tradicionais de candomblé e nação, aos humildes terreiros de Umbanda, ou, até mesmo, às mesas “de Kardec". O que nos diferencia são o tipo das entidades com as quais trabalhamos, a manipulação destas das diferentes energias de cada reino da Natureza, a abordagem aos obcessores, o tipo de material empregado... a ligação, ou não, de tradições milenares de grande beleza que devem ser respeitadas profundamente. Mas, nem por isto, são inquestionáveis.
             E na África? Como era?
             Os iorubanos, em sua grande sabedoria, dividiam o universo em dois planos: o espiritual, contendo nove graduações sucessivas, conhecido como mésêêsánôrun (“Nove Planos de Existência do Além”). Nele, todo o mundo material teria sido previamente plasmado como uma cópia exata de tudo o que continha, o chamado “duplo". Este conceito é tão complexo que só agora está sendo estudado pela Astrofísica. A Doutrina Espírita tem a mesmíssima abordagem, bem como os antigos egípcios e a cabala hebraica. Prossigamos.
             No simbolismo de “incontáveis", os iorubanos acreditavam que o número mágico de seiscentos marcava a presença de divindades responsáveis pela coordenação do ato de criar o mundo físico ou Âiyé ocupando um plano mais próximo à Terra chamado de Ôde Âiyé (Lugar das Divindades Sobre a Terra). Estas seiscentas divindades geradoras/gestantes são conhecidas na doutrina espírita como “Engenheiros Siderais” e na
Cabala como os Elohim (“Muitos"). Estas divindades africanas chamam-se lmolê.
             A reencarnação era item importante na crença iorubana e a garantia de, após a morte, o membro poder voltar à tribo de sua origem. Esta idéia não foge muito à crença espírita de que formamos famílias espirituais unidas por afinidades e injunções cármicas, reencarnando, juntos, durante várias existências. Todo africano gostaria de ser um Omo Bíbi (Bem-Nascido) dentro de uma das dezesseis aristocráticas famílias, cujo acesso à cultura e a cargos de maior relevância garantiriam uma vida mais facilitada na Terra. Ao desencarnar, por sua vez, a grande ambição era tornar-se um Baba Âgbâ Égum (Pai Ancestral Falecido), cultuado no Ilê Igbâlê (Casa dos Antepassados) como um ser benfazejo, “espírito de luz”, capaz de ajudar sua tribo familiar. Ou, quem sabe, ser um Êsâ (Ancestral Especial), que teria sido em vida sacerdote ou babalaô cultuado no Ilê-Ibo-Akú (Casa dos Mortos dos Terreiros). Tal deferência garantiria a reencarnação em melhores condições.
             Se fosse um espírito ancestral benfeitor vagaria no Ôrun (Mundo Sobrenatural), dando passagem à reencarnação como um Âyórunbó (Retornado do Além) ou, quem sabe, um Babatundé (Pai que Retornou), cuja inteligência precoce era imediatamente aproveitada, se nascido no conforto das tradicionais famílias iorubanas.
             O Inferno não existia no universo africano, nem conceitos de Demônio ou Satanás. De igual modo, dentro da doutrina espírita. Os espíritos sem luz, os Ajâgun (Elementos Destrutivos), vagavam na Terra e no Ôrun, pelos temidos Ôna Burúkú (Maus Caminhos), as zonas umbralinas. O mesmo acontecia com os Âbíkú (Crianças que Nascem para Morrer), espíritos de crianças que morriam muito cedo com duro carma.
             Acima de todos os lmolê (Divindades Criadoras) está Olôrun (Olódùmaré ou Nzambi), o Deus Supremo e único, que não tinha um culto particular. A ele o reencarnante pediria seu retorno â Terra. Analisando desta forma, o culto africano não estaria tão longe do monoteísmo. E em nada seriam primitivos ou incultos, vivenciando idéias tão modernas em matéria de filosofia religiosa.
             Mas foi no Brasil que os lmolê confundiram-se com os Òrisà (Orixás), que foram reis ou rainhas, personagens históricos, divinizados em seu clã, verdadeiros “santos protetores” para o seu povo, cujo poder significava o controle e o poder sobre uma determinada energia da Natureza que manipulavam.
             O que dizem outros autores respeitáveis?
             Para Olga Gudolle Cacciatore, em seu Dicionário de Cultos Afro-Brasileiros: “Os Orixás são intermediários entre Olôrun, ou melhor, entre seu representante (e filho) Oxalá e os homens. Muitos deles são antigos reis, rainhas ou heróis divinizados, os quais representam as vibrações das forças elementares da Natureza - raios, trovões, ventos, tempestades, água, fenômenos naturais como o arco-íris, atividades econômicas primordiais do homem primitivo-caça, agricultura - ou minerais, como o ferro que tanto serviu a essas atividades de sobrevivência, assim como às de extermínio na guerra." Os grifos são nossos.
             Vemos, então, que no Brasil houve profunda confusão entre conceitos de lmolê, Orixás e Axé, indistintamente.
             Para o imortal Pierre Verger, em sua obra Orixás, “o Orixá seria, em princípio, um ancestral divinizado, que em vida, estabelecera vínculos que lhe garantiam um controle sobre certas forças da Natureza, como o trovão, o vento, as águas doces ou salgadas, ou, então, assegurando-lhes a possibilidade de exercer certas atividades, como a caça, o trabalho com metais, ou, ainda, adquirindo o conhecimento das propriedades das plantas e de sua utilização. O poder, axé, do ancestral-orixá teria, após a sua morte, a faculdade de encarnar se momentaneamente em um de seus descendentes durante um fenômeno de possessão por ele provocada.” Os grifos são nossos.
             Para nós, espiritualistas (Verger era ateu e materialista, pois, afinal de contas, era um cientista reconhecido internacionalmente), se substituirmos a palavra acima “poder, axé” por espírito, não nos soaria mais familiar? Ora, se um Orixá viveu, teve um espírito. E esta individualidade incorpora em um médium, seu descendente. A esta altura, acredito, não haja dúvidas dentro do que foi exposto: um Orixá viveu na Terra, encarnou, governou, teve filhos e fez tudo o que um mortal faz. Após sua morte, foi elevado à categoria de divindade.
             E o que aconteceu no Brasil? Esqueceu-se de que havia reencarnação nos princípios africanos, sob o jugo inquestionável de um catolicismo maniqueísta. Relegados ao absurdo da escravidão, seus filhos, nascidos e educados sob um senhorio que impunha idéias de submissão e perseguições animalescas, a confusão proposital generalizou-se para que ‹› negro esquecesse uma cultura muito mais refinada do que aquela que aprendemos, sobre eles, em nossos bancos escolares. Foi passado um apagador sobre a história de suas cortes principescas e cidades bem organizadas. Sua língua, já na África, vinha subjugada sob a bandeira islâmica e as armas de fogo européias.
             Nossos negros famintos, doentes, confusos entre línguas estranhas às suas, misturados indiscriminadamente a outras tribos (até mesmo inimigas), submetidos com tirania conseguiram, como um verdadeiro milagre, juntar migalhas e sobreviver, mascarando seus ritos milenares sob o sincretismo das formas de santos europeus ao chicote do senhorio e à imposição de um catolicismo aviltante.
             Esqueceram de Xangô como um glorioso rei, o quarto alafin de Oió, que reinou entre 1450 a 1436 a.C. Aganju, por sua vez, foi o sexto alafin desta portentosa cidade em sua época, tendo vivido em 1370 e l290 a.C. Oduduwâ foi, na verdade, um personagem real, fundador da cultura iorubana entre 2000 a 1800 a.C. onde na Nigéria, há o seu túmulo marcado por belo obelisco. Oxaguiã foi rei de Ejigbô. Iansã (Oyâ) foi uma princesa de lrá, em 1450 a.C., prima de Xangô. Oxóssi (Ode) foi rei de Keto.
             Perderam sua história. Suas referências. Seu orgulho nacional.
             Seus gloriosos reis tornaram-se vagas energias perdidas em Ilu Aiyê sua mãe África. Distantes, perderam o sentido do Élègún (escolhido para ser médium) como único incorporante do Orixá. O deus passou a incorporar em seus descendentes e, mais tarde, naqueles que teriam o Ori (cabeça), o eledá do Orixá. Seu precioso protetor virou muitos, incorporando em muitos, numa ramificação completamente estranha à sua doutrina original.
             Era natural que, pela confusão nascida aí, pela passagem oral distorcida, praticassem os ritos sem muito bem compreender como acontecem tais fenômenos de origem mediúnica, cuja explicação de origem se perdeu. Tudo o mais é decorrência desta lastimável escravatura.
             Pessoalmente, lamento muito o que foi perdido e, hoje, é irrecuperável. () que foi confundido, pisoteado, manipulado por maus sacerdotes que visavam ao seu engrandecimento próprio e ao culto às vaidades. O negro deve ter orgulho de uma origem tão nobre, do esforço sobre-humano de seus antepassados, resgatando-lhes a história, peneirando seus rudimentos, estudando-lhes, a fundo, sua intrincada sabedoria.
             Para a UMBANDA os SETE ORIXÁS são estes aqui retratados, e APENAS ESTES!

             OXALÁ - IEMANJÁ - OGUM - OXÓSSI - XANGÔ - OXUM - ABALUAÊ.

             E, para encerrarmos esta polêmica postagem, peço licença a Verger para transcrição de um texto de Lendas Africanas dos Orixás, no seu primeiro trecho (um ltã?):

Um Babalaô me contou:
Antigamente, os Orixás eram homens.
Homens que se tornaram Orixás por causa de seus poderes.
Homens que se tomaram Orixás por causa de sua sabedoria.
Eles eram respeitados por causa de sua força.
Eles eram venerados por causa de suas virtudes.
Nós adoramos sua memória e os altos feitos que realizaram.
Foi assim que estes homens se tomaram Orixás.
Os homens eram numerosos sobre a Terra.
Antigamente, como hoje, muitos deles não eram valentes nem sábios.
A memória deles não se perpetuou.
Eles foram completamente esquecidos.
Não se tornaram Orixás.
Em cada vila um culto se estabeleceu.
Sobre a lembrança de um ancestral de prestigio.
E lendas foram transmitidas de geração em geração para render-lhes homenagem.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

UMBANDA - Os Motivos



             Muitos ignoram certas verdades sobre a Umbanda e a julgam apressadamente, sem conhecer seus ideais, gerando todas as dificuldades e o preconceito que ela vem enfrentando. Os maiores culpados disso são os próprios pais-de-santo e ditos Chefes de Terreiros que por também, muitas das vezes, não conhecerem estas verdades, manipulam e enganam os adeptos e a si mesmos, julgando estarem praticando a Umbanda quando na realidade são meros instrumentos de "entidades" ou espíritos que não tem o mínimo de conhecimento das questões espirituais, quando também não se deixam levar por sua vaidade pessoal e na maioria das vezes são mal informados sobre a origem e a verdadeira natureza da Umbanda, o que os leva a confundi-la com os Cultos de Nação ou com o Espiritismo. Sendo assim tentaremos trazer aqui um pouco de luz sobre o assunto.

          
            A história nos mostra que desde que os Negros foram tirados a força de sua terra natal, na África, e trazidos para o Brasil com rancor e ódio em seus corações, feridos em sua dignidade e distantes da pátria que amavam, muitas das vezes, enganados, feitos prisioneiros e escravos, resultou assim em muitos anos de lutas e dores. Os Negros tentavam manter seus costumes na cultura e na religião, que se baseava na evocação das forças da natureza, as quais denominavam “Orixás”, que eram uma espécie de deuses, a que cultuavam com todo fervor de suas vidas.


             Com o tempo aprenderam a se vingar de seus senhores e déspotas, através de pactos com entidades trevosas e com a magia negra, que não era outra coisa se não as energias magnéticas da natureza empregadas de forma equivocada. Dessa maneira o culto inicial aos Orixás foi se transformando em métodos de vingança e em pactos com entidades trevosas que assumiam a forma dessas forças da natureza ou Orixás, esses Cultos que na época eram nada mais que um disfarce para uma série de atividades menos dignas no campo da magia.

             Com o tempo foi se formando uma atmosfera psíquica indesejável no campo áureo do Brasil, que havia sido destinado a ser a Pátria do Evangelho, onde estava sendo implantada a árvore abençoada do Cristianismo, pelas bases eternas do Espiritismo. A psicosfera no ambiente espiritual da nação estava sendo afetada pelas energias negativas de tal forma, que entidades ligadas aos lugares de sofrimento encarnavam e desencarnavam conservando assim o ódio em seus corações, com exceção daquelas que entendiam o aspecto espiritual da situação. Dessa forma a magia negra foi se espalhando em forma de culto pelas terras brasileiras, de norte a sul do país onde as oferendas, os despachos ou ebós, eram oferecidos pelos adeptos desses cultos, que se multiplicavam a cada dia, aumentando ainda mais a crosta mental negativa que vinha se formando sobre os céus da nação.

             No Mundo Espiritual reuniram-se então, entidades de alta hierarquia com o objetivo de encontrar uma solução para desfazer a agrégora negativa que se formava na psicosfera do Brasil. A magia negra deveria ser combatida, seus efeitos destrutivos haveriam de ser desmanchados de maneira a transformar os próprios cultos degradantes em lugares que irradiassem o Amor e a Caridade, única forma de modificar o panorama sombrio que vinha sendo criado.


             Havia então a necessidade de que os próprios espíritos, mais evoluídos e esclarecidos, se manifestassem para realizar tal cometimento, e assim foram se apresentando, uma a uma, aquelas entidades iluminadas que haveriam de modificar suas formas perispirituais, assumindo assim, a conformação de Orixás, e entidades como Preto-velhos e Caboclos, onde levariam a mensagem da Caridade através da Umbanda, cujo objetivo inicial, seria o de desfazer a carga negativa que se abatia sobre os corações dos homens no Brasil.

             A Umbanda seria o elo de ligação com o Alto, penetraria aos poucos nos redutos da magia negra, os quais ainda se mantinham enganados quanto as Leis do Amor e da Caridade, e iria então transformando, com as palavras e os ensinamentos das entidades, os sentimentos das pessoas. Para isso era necessário que elevados companheiros da vida maior renunciassem certos métodos de trabalho, considerados mais elevados, e se dedicassem às atividades que a Umbanda propunha. A essas entidades, se juntaram a antigos espíritos de escravos e índios, que em sua simplicidade e boa vontade, se propuseram a trabalhar para mostrar aos homens as lições sagradas da Umbanda, auxiliando assim na cura de doenças e transmitindo lições de Amor e Caridade.

             A Umbanda utiliza um vasto simbolismo em seus trabalhos, e ela tem nesse simbolismo um de seus fundamentos, simbolismo este, que se aplica na identificação das entidades e dão sustentação as linhas de trabalhos espirituais, cada qual com seu nível vibratório. Esse simbolismo também identifica o campo vibratório a qual a entidade desenvolve seu trabalho, e sob qual Orixá, ou força da natureza, é regido.

     
      Podemos observar esse simbolismo desde sua fundação,em 15 de novembro de 1908, na cidade de Niterói/RJ, quando o grande mentor espiritual, que teve a missão de rasgar o véu da ignorância e estabelecer os fundamentos da Umbanda como religião, se manifestou na forma perispiritual e se identificou como “Caboclo das Sete Encruzilhadas”, nome este totalmente simbólico, pois “Caboclo” era a palavra destinada às pessoas mestiças, e “Sete Encruzilhadas”, que são as sete linhas de trabalhos da Umbanda, os sete caminhos, que são regidos pelo Orixá maior “Oxalá”, este regente do nosso planeta. Com isso concluímos que a Umbanda é uma religião sem distinção de raças e credos e que através da Fé, que é o “Mistério” regido por Oxalá, tem o objetivo de levar a mensagem da Caridade e do Amor ao próximo.

             Na verdade, com isso a Umbanda tem conseguido seu intento e aos poucos vão sumindo dos corações oprimidos o desejo de vingança, o ódio e o rancor, os cultos afros vão se transformando em sua essência, auxiliando assim no progresso daqueles que sintonizam com tais expressões religiosas, com isso a Umbanda vem modificando o aspecto desses cultos e os transformando gradativamente numa religião mais espiritualizada.

             Na palavra das entidades, a Lei da causa e efeito é ensinada por meio de “Xangô”, que simboliza a justiça, a reencarnação quando falam, de sua outra vida e da oportunidade de voltar a Terra, em um novo corpo, para corrigir erros do passado e ajudar seus filhos, as forças das matas e das ervas, são ensinadas na fala de “Oxossi”, o Amor é personificado em “Oxum”, e a força de transformação e a energia da Vitalidade se apresentam nas palavras de “Ogum”.

             Mas ainda há muito que fazer, muito trabalho a realizar, nossa explicação não esgota o assunto, mostra apenas um aspecto da Umbanda, que guarda suas raízes em épocas muito distantes do tempo, e que apesar de ser uma religião nova, com quase um século de existência, vem crescendo e ganhando forças a cada dia. Uma pena muitos pais-de-santo e chefes de Terreiros não serem conscientes de tudo isso, e é essa ignorância a maior responsável pela visão errada que a maioria das pessoas tem em relação aos rituais sagrados da Umbanda, é por isso que devemos nos instruir cada vez mais sobre os fundamentos e raizes de nossa religião, e que através desse estudo e da experiência que vivenciarmos no dia-a-dia de nossos trabalhos possamos corrigir todos os equívocos.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

UMBANDA - O Princípio.

 
                  No final de 1908, Zélio Fernandino de Moraes, um jovem rapaz com 17 anos de idade, que preparava-se para ingressar na carreira militar na Marinha,começou a sofrer estranhos "ataques". Sua família, conhecida e tradicional na cidade de Neves, estado do Rio de Janeiro, foi pega de surpresa pelos acontecimentos.
                 Esses "ataques" do rapaz, eram caracterizados por posturas de um velho, falando coisas sem sentido e desconexas, como se fosse outra pessoa que havia vivido em outra época. Muitas vezes assumia uma forma que parecia a de um felino lépido e desembaraçado que mostrava conhecer muitas coisas da natureza.
                 Após examiná-lo durante vários dias, o médico da família recomendou que seria melhor encaminhá-lo a um padre, pois o médico (que era tio do paciente), dizia que a loucura do rapaz não se enquadrava em nada que ele havia conhecido. Acreditava mais, era que o menino estava endemoniado.
                 Alguém da família sugeriu que "isso era coisa de espiritismo" e que era melhor levá-lo à Federação Espírita de Niterói, presidida na época por José de Souza. No dia 15 de novembro, o jovem Zélio foi convidado a participar da sessão, tomando um lugar à mesa. Tomado por uma força estranha e alheia a sua vontade, e contrariando as normas que impediam o afastamento de qualquer dos componentes da mesa, 
                 Zélio levantou-se e disse: "Aqui está faltando uma flor". Saiu da sala indo ao jardim e voltando após com uma flor, que colocou no centro da mesa. Essa atitude causou um enorme tumulto entre os presentes. Restabelecidos os trabalhos, manifestaram-se nos médiuns kardecistas espíritos que se diziam pretos escravos e índios.
                 O diretor dos trabalhos achou tudo aquilo um absurdo e advertiu-os com aspereza, citando o "seu atraso espiritual" e convidando-os a se retirarem. Após esse incidente, novamente uma força estranha tomou o jovem Zélio e através dele falou: "Porque repelem a presença desses espírtos, se nem sequer se dignaram a ouvir suas mensagens"?. Será por causa de suas origens sociais e da cor ?"Seguiu-se um diálogo acalorado, e os responsáveis pela sessão procuravam doutrinar e afastar o espírito desconhecido, que desenvolvia uma argumentação segura. Um médium vidente perguntou: _"Por quê o irmão fala nestes termos, pretendendo que a direção aceite a manifestação de espíritos que, pelo grau de cultura que tiveram, quando encarnados, são claramente atrasados? Por quê fala deste modo, se estou vendo que me dirijo neste momento a um jesuíta e a sua veste branca reflete uma aura de luz? E qual o seu nome irmão?
                _"Se querem um nome, que seja este: sou o Caboclo das Sete Encruzilhadas, porque para mim, não haverá caminhos fechados".  
                _"O que você vê em mim, são restos de uma existência anterior. Fui padre e o meu nome era Gabriel Malagrida. Acusado de bruxaria fui sacrificado na fogueira da Inquisição em Lisboa, no ano de 1761. Mas em minha última existência física, Deus concedeu-me o privilégio de nascer como caboclo brasileiro."
 
                       Anunciou também o tipo de missão que trazia do Astral:
                 _"Se julgam atrasados os espíritos de pretos e índios, devo dizer que amanhã (16 de novembro) estarei na casa de meu aparelho, às 20 horas, para dar início a um culto em que estes irmãos poderão dar suas mensagens e, assim, cumprir missão que o Plano Espiritual lhes confiou. Será uma religião que falará aos humildes, simbolizando a igualdade que deve existir entre todos os irmãos, encarnados e desencarnados.”
                 O vidente retrucou: _"Julga o irmão que alguém irá assistir a seu culto" ? perguntou com ironia. E o espírito já identificado disse: _"Cada colina de Niterói atuará como porta-voz, anunciando o culto que amanhã iniciarei".
                 Para finalizar o caboclo completou:
                 _"Deus, em sua infinita Bondade, estabeleceu na morte, o grande nivelador universal, rico ou pobre, poderoso ou humilde, todos se tornariam iguais na morte, mas vocês, homens preconceituosos, não contentes em estabelecer diferenças entre os vivos, procuram levar essas mesmas diferenças até mesmo além da barreira da morte. Porque não podem nos visitar esses humildes trabalhadores do espaço, se apesar de não haverem sido pessoas socialmente importantes na Terra, também trazem importantes mensagens do além?"
                  No dia seguinte, na casa da família Moraes, na rua Floriano Peixoto, número 30, ao se aproximar a hora marcada, 20:00 h, lá já estavam reunidos os membros da Federação Espírita para comprovarem a veracidade do que fora declarado na véspera; estavam os parentes mais próximos, amigos, vizinhos e, do lado de fora, uma multidão de desconhecidos.
                 Às 20:00 h, manifestou-se o Caboclo das Sete Encruzilhadas. Declarou que naquele momento se iniciava um novo culto, em que os espíritos de velhos africanos que haviam servido como escravos e que, desencarnados, não encontravam campo de atuação nos remanescentes das seitas negras, já deturpadas e dirigidas em sua totalidade para os trabalhos de feitiçaria; e os índios nativos de nossa terra, poderiam trabalhar em benefício de seus irmãos encarnados, qualquer que fosse a cor, a raça, o credo e a condição social.
                 A prática da caridade, no sentido do amor fraterno, seria a característica principal deste culto, que teria por base o Evangelho de Jesus. O Caboclo estabeleceu as normas em que se processaria o culto. Sessões, assim seriam chamados os períodos de trabalho espiritual, diárias, das 20:00 às 22:00 h; os participantes estariam uniformizados de branco e o atendimento seria gratuito. Deu, também, o nome do Movimento Religioso que se iniciava: UMBANDA – Manifestação do Espírito para a Caridade.
                 A Casa de trabalhos espirituais que ora se fundava, recebeu o nome de Nossa Senhora da Piedade, porque assim como Maria acolheu o filho nos braços, também seriam acolhidos como filhos todos os que necessitassem de ajuda ou de conforto. Ditadas as bases do culto, após responder em latim e alemão às perguntas dos sacerdotes ali presentes, o Caboclo das Sete Encruzilhadas passou a parte prática dos trabalhos.
                 O caboclo foi atender um paralítico, fazendo este ficar curado. Passou a atender outras pessoas que haviam neste local, praticando suas curas. Nesse mesmo dia incorporou um preto velho chamado Pai Antônio, aquele que, com fala mansa, foi confundido como loucura de seu aparelho e com palavras de muita sabedoria e humildade e com timidez aparente, recusava-se a sentar-se junto com os presentes à mesa dizendo as seguintes palavras:
                  "_ Nêgo num senta não meu sinhô, nêgo fica aqui mesmo. Isso é coisa de sinhô branco e nêgo deve arrespeitá."
                   Após insistência dos presentes fala:
                  "_Num carece preocupá não. Nêgo fica no toco que é lugá di nego."
                   Assim, continuou dizendo outras palavras representando a sua humildade. Uma pessoa na reunião pergunta se ele sentia falta de alguma coisa que tinha deixado na terra e ele responde:
                   "_Minha caximba. Nêgo qué o pito que deixou no toco. Manda mureque busca."
                     Tal afirmativa deixou os presentes perplexos, os quais estavam presenciando a solicitação do primeiro elemento de trabalho para esta religião. Foi Pai Antonio também a primeira entidade a solicitar uma guia, até hoje usadas pelos membros da Tenda e carinhosamente chamada de "Guia de Pai Antonio". No dia seguinte, verdadeira romaria formou-se na rua Floriano Peixoto. Enfermos, cegos etc. vinham em busca de cura e ali a encontravam, em nome de Jesus. Médiuns, cuja manifestação mediúnica fora considerada loucura, deixaram os sanatórios e deram provas de suas qualidades excepcionais.
                    A partir daí, o Caboclo das Sete Encruzilhadas começou a trabalhar incessantemente para o esclarecimento, difusão e sedimentação da religião de Umbanda. Além de Pai Antônio, tinha como auxiliar o Caboclo orixá Malé, entidade com grande experiência no desmanche de trabalhos de baixa magia.
                                                               Em 1918, o Caboclo das Sete Encruzilhadas recebeu ordens do Astral Superior para fundar sete tendas para a propagação da Umbanda. As  agremiações ganharam os seguintes nomes: Tenda Espírita Nossa Senhora da Guia; Tenda Espírita Nossa Senhora da Conceição; Tenda Espírita Santa Bárbara; Tenda Espírita São Pedro; Tenda Espírita Oxalá, Tenda Espírita São Jorge; e Tenda Espírita São Gerônimo..Enquanto Zélio estava encarnado, foram fundadas mais de 10.000 tendas a partir das mencionadas.                          Embora não seguindo a carreira militar para a qual se preparava, pois sua missão mediúnica não o permitiu, Zélio Fernandino de Moraes nunca fez da religião sua profissão. Trabalhava para o sustento de sua família e diversas vezes contribuiu financeiramente para manter os templos que o Caboclo das Sete Encruzilhadas fundou, além das pessoas que se hospedavam em sua casa para os tratamentos espirituais, que segundo o que dizem parecia um albergue. Nunca aceitara ajuda monetária de ninguém era ordem do seu guia chefe, apesar de inúmeras vezes isto ser oferecido a ele. Ministros, industriais, e militares que recorriam ao poder mediúnico de Zélio para a cura de parentes enfermos e os vendo recuperados, procuravam retribuir o benefício através de presentes, ou preenchendo cheques vultosos. "_Não os aceite. Devolva-os!", ordenava sempre o Caboclo.
                          A respeito do uso do termo espírita e de nomes de santos católicos nas tendas fundadas, o mesmo teve como causa o fato de naquela época não se poder registrar o nome Umbanda, e quanto aos nomes de santos, era uma maneira de estabelecer um ponto de referência para fiéis da religião católica que procuravam os préstimos da Umbanda. O ritual estabelecido pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas era bem simples, com cânticos baixos e harmoniosos, vestimenta branca, proibição de sacrifícios de animais. Dispensou os atabaques e as palmas. Capacetes, espadas, cocares, vestimentas de cor, rendas e lamês não seriam aceitos. As guias usadas são apenas as que determinam a entidade que se manifesta. Os banhos de ervas, os amacis, a concentração nos ambientes vibratórios da natureza, a par do ensinamento doutrinário, na base do Evangelho, constituiriam os principais elementos de preparação do médium.
                          O ritual sempre foi simples. Nunca foi permitido sacrifícios de animais. Não utilizavam atabaques ou qualquer outros objetos e adereços. Os atabaques começaram a ser usados com o passar do tempo por algumas das Tendas fundadas pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, mas a Tenda Nossa Senhora da Piedade não utiliza em seu ritual até hoje. Após 55 anos de atividades à frente da Tenda Nossa Senhora da Piedade (1º templo de Umbanda), Zélio entregou a direção dos trabalhos as suas filhas Zélia e Zilméa, continuando, ao lado de sua esposa Isabel, médium do Caboclo Roxo, a trabalhar na Cabana de Pai Antônio, em Boca do Mato, distrito de Cachoeiras de Macacu – RJ, dedicando a maior parte das horas de seu dia ao atendimento de portadores de enfermidades psíquicas e de todos os que o procuravam.
                          Em 1971, a senhora Lilia Ribeiro, diretora da TULEF (Tenda de Umbanda Luz, Esperança, Fraternidade – RJ) gravou uma mensagem do Caboclo das Sete Encruzilhadas, e que bem espelha a humildade e o alto grau de evolução desta entidade de muita luz. Ei-la:
                           "A Umbanda tem progredido e vai progredir. É preciso haver sinceridade, honestidade e eu previno sempre aos companheiros de muitos anos: a vil moeda vai prejudicar a Umbanda; médiuns que irão se vender e que serão, mais tarde, expulsos, como Jesus expulsou os vendilhões do templo. O perigo do médium homem é a consulente mulher; do médium mulher é o consulente homem. É preciso estar sempre de prevenção, porque os próprios obsessores que procuram atacar as nossas casas fazem com que toque alguma coisa no coração da mulher que fala ao pai de terreiro, como no coração do homem que fala à mãe de terreiro. É preciso haver muita moral para que a Umbanda progrida, seja forte e coesa. Umbanda é humildade, amor e caridade – esta a nossa bandeira. Neste momento, meus irmãos, me rodeiam diversos espíritos que trabalham na Umbanda do Brasil: Caboclos de Oxossi, de Ogum, de Xangô. Eu, porém, sou da falange de Oxossi, meu pai, e não vim por acaso, trouxe uma ordem, uma missão.
                            Meus irmãos: sejam humildes, tenham amor no coração, amor de irmão para irmão, porque vossas mediunidades ficarão mais puras, servindo aos espíritos superiores que venham a baixar entre vós; é preciso que os aparelhos estejam sempre limpos, os instrumentos afinados com as virtudes que Jesus pregou aqui na Terra, para que tenhamos boas comunicações e proteção para aqueles que vêm em busca de socorro nas casas de Umbanda.
                             Meus irmãos: meu aparelho já está velho, com 80 anos a fazer, mas começou antes dos 18. Posso dizer que o ajudei a casar, para que não estivesse a dar cabeçadas, para que fosse um médium aproveitável e que, pela sua mediunidade, eu pudesse implantar a nossa Umbanda. A maior parte dos que trabalham na Umbanda, se não passaram por esta Tenda, passaram pelas que saíram desta Casa. Tenho uma coisa a vos pedir: se Jesus veio ao planeta Terra na humildade de uma manjedoura, não foi por acaso. Assim o Pai determinou. Podia ter procurado a casa de um potentado da época, mas foi escolher aquela que havia de ser sua mãe, este espírito que viria traçar à humanidade os passos para obter paz, saúde e felicidade. Que o nascimento de Jesus, a humildade que Ele baixou à Terra, sirvam de exemplos, iluminando os vossos espíritos, tirando os escuros de maldade por pensamento ou práticas; que Deus perdoe as maldades que possam ter sido pensadas, para que a paz possa reinar em vossos corações e nos vossos lares. Fechai os olhos para a casa do vizinho; fechai a boca para não murmurar contra quem quer que seja; não julgueis para não serdes julgados; acreditai em Deus e a paz entrará em vosso lar. É dos Evangelhos. Eu, meus irmãos, como o menor espírito que baixou à Terra, mas amigo de todos, numa concentração perfeita dos companheiros que me rodeiam neste momento, peço que eles sintam a necessidade de cada um de vós e que, ao sairdes deste templo de caridade, encontreis os caminhos abertos, vossos enfermos melhorados e curados, e a saúde para sempre em vossa matéria.
                             Com um voto de paz, saúde e felicidade, com humildade, amor e caridade, sou e sempre serei o humilde Caboclo das Sete Encruzilhadas".
                             Zélio Fernandino de Moraes dedicou 66 anos de sua vida à Umbanda, tendo retornado ao plano espiritual em 03 de outubro de 1975, com a certeza de missão cumprida. Seu trabalho e as diretrizes traçadas pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas continuaram em ação através de suas filhas Zélia e Zilméa de Moraes, que têm em seus corações um grande amor pela Umbanda, árvore frondosa que está sempre a dar frutos a quem souber e merecer colhê-los.