Esta pergunta merece todo um capítulo de livro. Este é um dos pontos de vista que entram em confronto com os dos nossos irmãos africanistas. Todavia, recordamos que se fôssemos concordar com todos os aspectos de outras religiões, seríamos uma outra.
Mesmo em nosso meio há profunda confusão; um verdadeiro hiato. Muitos, até mesmo do restrito grupo de intelectuais, discordarão veementemente. Outros considerarão um sacrilégio. Outros virão de punhos cerrados.
Mas acredito que estejamos aqui para pôr as idéias sobre a mesa: o leitor tirará sua própria conclusão. Para princípio de conversa, é raro ver-se um espiritualista discordar de pontos-chave das idéias espíritas (diga-se Kardec e suas obras básicas), bem como as mensagens de André Luís, Emmanuel, Irmão X, sob a mediunidade mais do que examinada de Chico Xavier. Considerá-lo fraudulento, após mais de cinqüenta anos de labuta mediúnica impecável, mesmo sob o crivo daqueles que tudo fariam para ridicularizá-lo, está bastante longe da realidade. Fica difícil, não é mesmo? Ora, um exemplo da veracidade de suas mensagens consta em Evolução em Dois Mundos de André Luís, que falava, em meados de 1958 (primeira edição), que o átomo seria formado de partículas ainda menores do que os clássicos elétrons, prótons e nêutrons. Tal “teoria” foi provada apenas nas décadas de oitenta e noventa e, portanto, bem posterior ã primeira edição deste livro.
Baseado nestas idéias, portanto, vamos desenvolver nosso raciocínio. Assim, o que é um Orixá? Incorporamos diretamente uma força da Natureza? Orixá é a força da Natureza? Orixá não é uma força da Natureza porque o que existe em determinado reino é um somatório de energias. Assim, por exemplo, o mar é formado de sais, água, energia absorvida da luz solar, energia eletrificada nascida do movimento das ondas etc. Uma energia, ou somatório delas, não pode pensar porque é matéria, e sabemos que matéria não pensa. Já vimos que energia é uma matéria. Tanto é verdade que é mensurável por fórmulas físicas. Outra coisa é que não poderíamos incorporar diretamente uma força da Natureza porque, senão, desintegraríamos. Vimos que, com a conceituação de resistência, isto prova ser impossível. E o Astral poderia criar transformadores astrais para que um médium pudesse ligar-se a esta energia “pensante"? Não. A prática prova que médiuns sérios não incorporam espíritos de “altíssima” voltagem como Buda, Jesus, Khrisna, Maomé, etc.
Portanto, esta cogitação não é absolutamente prática.
Todas estas idéias, para quem veio de berço africanista e agora trabalha em Umbanda, parecem desconcertantes. Mas pedimos paciência. Ponho esta questão: como nós, que trabalhamos com espíritos acreditamos em vida após a Morte, poderemos aceitar que matéria pura e simples tenha autonomia, sentimentos, características de personalidade e tudo o mais que caracteriza uma individualidade? O que somos, então? Espiritualistas ou materialistas? Com o que trabalhamos?E o que vem, então, incorporando em outras religiões?É um fenômeno puramente anímico (do próprio médium)? Respeitosamente, cada Orixá “no mundo” demonstra claramente ter uma personalidade própria, diferenciada de seu próprio médium e dos demais Orixás que tenham o mesmo nome. Vê-se isto claramente durante as possessões, pelo menos, as vistas até hoje.
Queremos chegar neste ponto: eu e muitas outras pessoas crêem ser um Orixá um ancestral divinizado, um espírito ancestral incorporante. Pode parecer a outros repulsivo. Um deus, em pessoa, deixa seu status e passa a ser um egum (espírito de morto), mesmo de grande luz.
Para nós, tudo são fenômenos mediúnicos, com abordagens e ritos diferentes. Todos válidos e verdadeiros. Mas fenômenos mediúnicos!
É sobre este enfoque que chegamos à seguinte conclusão: um Orixá pode, perfeitamente, ir aos cultos tradicionais de candomblé e nação, aos humildes terreiros de Umbanda, ou, até mesmo, às mesas “de Kardec". O que nos diferencia são o tipo das entidades com as quais trabalhamos, a manipulação destas das diferentes energias de cada reino da Natureza, a abordagem aos obcessores, o tipo de material empregado... a ligação, ou não, de tradições milenares de grande beleza que devem ser respeitadas profundamente. Mas, nem por isto, são inquestionáveis.
E na África? Como era?
Os iorubanos, em sua grande sabedoria, dividiam o universo em dois planos: o espiritual, contendo nove graduações sucessivas, conhecido como mésêêsánôrun (“Nove Planos de Existência do Além”). Nele, todo o mundo material teria sido previamente plasmado como uma cópia exata de tudo o que continha, o chamado “duplo". Este conceito é tão complexo que só agora está sendo estudado pela Astrofísica. A Doutrina Espírita tem a mesmíssima abordagem, bem como os antigos egípcios e a cabala hebraica. Prossigamos.
No simbolismo de “incontáveis", os iorubanos acreditavam que o número mágico de seiscentos marcava a presença de divindades responsáveis pela coordenação do ato de criar o mundo físico ou Âiyé ocupando um plano mais próximo à Terra chamado de Ôde Âiyé (Lugar das Divindades Sobre a Terra). Estas seiscentas divindades geradoras/gestantes são conhecidas na doutrina espírita como “Engenheiros Siderais” e na
Cabala como os Elohim (“Muitos"). Estas divindades africanas chamam-se lmolê.
A reencarnação era item importante na crença iorubana e a garantia de, após a morte, o membro poder voltar à tribo de sua origem. Esta idéia não foge muito à crença espírita de que formamos famílias espirituais unidas por afinidades e injunções cármicas, reencarnando, juntos, durante várias existências. Todo africano gostaria de ser um Omo Bíbi (Bem-Nascido) dentro de uma das dezesseis aristocráticas famílias, cujo acesso à cultura e a cargos de maior relevância garantiriam uma vida mais facilitada na Terra. Ao desencarnar, por sua vez, a grande ambição era tornar-se um Baba Âgbâ Égum (Pai Ancestral Falecido), cultuado no Ilê Igbâlê (Casa dos Antepassados) como um ser benfazejo, “espírito de luz”, capaz de ajudar sua tribo familiar. Ou, quem sabe, ser um Êsâ (Ancestral Especial), que teria sido em vida sacerdote ou babalaô cultuado no Ilê-Ibo-Akú (Casa dos Mortos dos Terreiros). Tal deferência garantiria a reencarnação em melhores condições.
Se fosse um espírito ancestral benfeitor vagaria no Ôrun (Mundo Sobrenatural), dando passagem à reencarnação como um Âyórunbó (Retornado do Além) ou, quem sabe, um Babatundé (Pai que Retornou), cuja inteligência precoce era imediatamente aproveitada, se nascido no conforto das tradicionais famílias iorubanas.
O Inferno não existia no universo africano, nem conceitos de Demônio ou Satanás. De igual modo, dentro da doutrina espírita. Os espíritos sem luz, os Ajâgun (Elementos Destrutivos), vagavam na Terra e no Ôrun, pelos temidos Ôna Burúkú (Maus Caminhos), as zonas umbralinas. O mesmo acontecia com os Âbíkú (Crianças que Nascem para Morrer), espíritos de crianças que morriam muito cedo com duro carma.
Acima de todos os lmolê (Divindades Criadoras) está Olôrun (Olódùmaré ou Nzambi), o Deus Supremo e único, que não tinha um culto particular. A ele o reencarnante pediria seu retorno â Terra. Analisando desta forma, o culto africano não estaria tão longe do monoteísmo. E em nada seriam primitivos ou incultos, vivenciando idéias tão modernas em matéria de filosofia religiosa.
Mas foi no Brasil que os lmolê confundiram-se com os Òrisà (Orixás), que foram reis ou rainhas, personagens históricos, divinizados em seu clã, verdadeiros “santos protetores” para o seu povo, cujo poder significava o controle e o poder sobre uma determinada energia da Natureza que manipulavam.
O que dizem outros autores respeitáveis?
Para Olga Gudolle Cacciatore, em seu Dicionário de Cultos Afro-Brasileiros: “Os Orixás são intermediários entre Olôrun, ou melhor, entre seu representante (e filho) Oxalá e os homens. Muitos deles são antigos reis, rainhas ou heróis divinizados, os quais representam as vibrações das forças elementares da Natureza - raios, trovões, ventos, tempestades, água, fenômenos naturais como o arco-íris, atividades econômicas primordiais do homem primitivo-caça, agricultura - ou minerais, como o ferro que tanto serviu a essas atividades de sobrevivência, assim como às de extermínio na guerra." Os grifos são nossos.
Vemos, então, que no Brasil houve profunda confusão entre conceitos de lmolê, Orixás e Axé, indistintamente.
Para o imortal Pierre Verger, em sua obra Orixás, “o Orixá seria, em princípio, um ancestral divinizado, que em vida, estabelecera vínculos que lhe garantiam um controle sobre certas forças da Natureza, como o trovão, o vento, as águas doces ou salgadas, ou, então, assegurando-lhes a possibilidade de exercer certas atividades, como a caça, o trabalho com metais, ou, ainda, adquirindo o conhecimento das propriedades das plantas e de sua utilização. O poder, axé, do ancestral-orixá teria, após a sua morte, a faculdade de encarnar se momentaneamente em um de seus descendentes durante um fenômeno de possessão por ele provocada.” Os grifos são nossos.
Para nós, espiritualistas (Verger era ateu e materialista, pois, afinal de contas, era um cientista reconhecido internacionalmente), se substituirmos a palavra acima “poder, axé” por espírito, não nos soaria mais familiar? Ora, se um Orixá viveu, teve um espírito. E esta individualidade incorpora em um médium, seu descendente. A esta altura, acredito, não haja dúvidas dentro do que foi exposto: um Orixá viveu na Terra, encarnou, governou, teve filhos e fez tudo o que um mortal faz. Após sua morte, foi elevado à categoria de divindade.
E o que aconteceu no Brasil? Esqueceu-se de que havia reencarnação nos princípios africanos, sob o jugo inquestionável de um catolicismo maniqueísta. Relegados ao absurdo da escravidão, seus filhos, nascidos e educados sob um senhorio que impunha idéias de submissão e perseguições animalescas, a confusão proposital generalizou-se para que ‹› negro esquecesse uma cultura muito mais refinada do que aquela que aprendemos, sobre eles, em nossos bancos escolares. Foi passado um apagador sobre a história de suas cortes principescas e cidades bem organizadas. Sua língua, já na África, vinha subjugada sob a bandeira islâmica e as armas de fogo européias.
Nossos negros famintos, doentes, confusos entre línguas estranhas às suas, misturados indiscriminadamente a outras tribos (até mesmo inimigas), submetidos com tirania conseguiram, como um verdadeiro milagre, juntar migalhas e sobreviver, mascarando seus ritos milenares sob o sincretismo das formas de santos europeus ao chicote do senhorio e à imposição de um catolicismo aviltante.
Esqueceram de Xangô como um glorioso rei, o quarto alafin de Oió, que reinou entre 1450 a 1436 a.C. Aganju, por sua vez, foi o sexto alafin desta portentosa cidade em sua época, tendo vivido em 1370 e l290 a.C. Oduduwâ foi, na verdade, um personagem real, fundador da cultura iorubana entre 2000 a 1800 a.C. onde na Nigéria, há o seu túmulo marcado por belo obelisco. Oxaguiã foi rei de Ejigbô. Iansã (Oyâ) foi uma princesa de lrá, em 1450 a.C., prima de Xangô. Oxóssi (Ode) foi rei de Keto.
Perderam sua história. Suas referências. Seu orgulho nacional.
Seus gloriosos reis tornaram-se vagas energias perdidas em Ilu Aiyê sua mãe África. Distantes, perderam o sentido do Élègún (escolhido para ser médium) como único incorporante do Orixá. O deus passou a incorporar em seus descendentes e, mais tarde, naqueles que teriam o Ori (cabeça), o eledá do Orixá. Seu precioso protetor virou muitos, incorporando em muitos, numa ramificação completamente estranha à sua doutrina original.
Era natural que, pela confusão nascida aí, pela passagem oral distorcida, praticassem os ritos sem muito bem compreender como acontecem tais fenômenos de origem mediúnica, cuja explicação de origem se perdeu. Tudo o mais é decorrência desta lastimável escravatura.
Pessoalmente, lamento muito o que foi perdido e, hoje, é irrecuperável. () que foi confundido, pisoteado, manipulado por maus sacerdotes que visavam ao seu engrandecimento próprio e ao culto às vaidades. O negro deve ter orgulho de uma origem tão nobre, do esforço sobre-humano de seus antepassados, resgatando-lhes a história, peneirando seus rudimentos, estudando-lhes, a fundo, sua intrincada sabedoria.
Para a UMBANDA os SETE ORIXÁS são estes aqui retratados, e APENAS ESTES!
OXALÁ - IEMANJÁ - OGUM - OXÓSSI - XANGÔ - OXUM - ABALUAÊ.
E, para encerrarmos esta polêmica postagem, peço licença a Verger para transcrição de um texto de Lendas Africanas dos Orixás, no seu primeiro trecho (um ltã?):
Um Babalaô me contou:
Antigamente, os Orixás eram homens.
Homens que se tornaram Orixás por causa de seus poderes.
Homens que se tomaram Orixás por causa de sua sabedoria.
Eles eram respeitados por causa de sua força.
Eles eram venerados por causa de suas virtudes.
Nós adoramos sua memória e os altos feitos que realizaram.
Foi assim que estes homens se tomaram Orixás.
Os homens eram numerosos sobre a Terra.
Antigamente, como hoje, muitos deles não eram valentes nem sábios.
A memória deles não se perpetuou.
Eles foram completamente esquecidos.
Não se tornaram Orixás.
Em cada vila um culto se estabeleceu.
Sobre a lembrança de um ancestral de prestigio.
E lendas foram transmitidas de geração em geração para render-lhes homenagem.


Nenhum comentário:
Postar um comentário